Entrevista com João Nery, o primeiro transexual brasileiro

 

João Nery, o primeiro transexual brasileiro conta um pouco da sua trajetória em entrevista para a ACGE. João Nery esteve em São Paulo no mês de março, para o lançamento de sua autobiografia “Viagem Solitária” na Casa das Rosas e para uma palestra na FMU – Faculdades Metropolitanas Unidas.

ACGE – De onde surgiu a ideia de fazer uma biografia?

J.N – Bom eu já tinha feito uma antes em 84 e esse segundo livro é uma releitura do primeiro, mais completa, tem toda a quarta parte que é minha paternidade, e eu enfim, tive uma solicitação em 2010 pra dar uma entrevista pra revista TRIP e a partir dessa entrevista eu me animei e resolvi a reescrever o livro, complementar porque estava tudo defasado, tirei várias coisas coloquei outras tantas.

ACGE – Teve alguma coisa importante que acabou ficando fora do livro?

J.N – Esse atual não, eu disse tudo. Pelo menos até então.

ACGE – Da época que você fez a cirurgia para os dias de hoje, ainda há muito preconceito com isso?

J.N – Ah com certeza, nós não conseguimos nem aprovar a lei anti-homofobia. Nem o kit consegue ir para as escolas, como lugar fundamental para fazer a cabeça das crianças e começar a respeitar a diversidade. Claro que houve um avanço, as cirurgias foram legalizadas, a união estável foi aceita, mas sem dúvida nenhuma, nenhum grau é muito grande ainda anti-homofobia. Só neste ano, nos primeiros três meses do ano nós tivemos 104 mortes por homofobia. Isso equivale ao dobro do ano passado.

ACGE – A homofobia varia de acordo com a cidade, por exemplo, há diferença do Rio para São Paulo?

J.N – São Paulo talvez seja o estado mais expressivo, então se avaliar se tem mais homofobia em São Paulo ou se tem no Rio eu não sei. Acho que tem nos dois. Agora, proporcionalmente deverá ter mais em São Paulo porque São Paulo tem uma população maior.

ACGE – Como foi a mudança de vida após a cirurgia?

J.N – Todo mundo acha que a cirurgia é um marco. Isso é meio falso, eu fiz a cirurgia em 1977, plena ditadura. Não havia cirurgia legalizada, foi tudo por debaixo do pano. Ilegal. Eu não pude mudar minha identidade através da justiça, por isso perdi meu currículo todo. Eu era psicólogo, era professor, eu tinha um consultório e tal, depois virei analfabeto. Agora, eu comecei a viver minha identidade masculina socialmente, se bem que socialmente desde o dia em que eu nasci, mas, socialmente a partir dos 20 ou 22 anos de idade, quando eu comecei a dirigir um táxi. Eu ainda fazia faculdade de psicologia e trabalhava num táxi e nesse táxi eu tinha uma identidade masculina.  Então eu tinha uma dupla identidade social, eu era homem no táxi, no prédio que eu morava porque eu era casado com uma garota e me viam como uma figura masculina, na rua, e era mulher nas faculdades que eu dava aula, e enfim, para os conhecidos, para a família, para os amigos. É enlouquecedor esse processo, claro, eu não tomava hormônio ainda, mas, eu já fazia a figura de um rapaz. A cirurgia surgiu cinco anos depois desse processo. O fato de eu ter tirado as mamas me deu uma articulação socialmente maior, eu podia ir a praia, podia nadar, e a histerectomia fez com que eu parasse de menstruar e produzir principalmente estrogêneo. Depois da cirurgia é que eu comecei a me “hormonar”, até porque eu não podia ter feito isso antes, pois como eu ia ser uma mulher barbada dando aula numa faculdade como professor?

ACGE – Como foi a experiência de ser pai?

J.N – Foi muito especial. Minha mulher engravidou, não de mim evidentemente, foi aquele impacto, mas eu tive um tempo para pensar. Eu sempre tive vontade de ser pai, e eu, depois que passou aquela coisa do orgulho ferido, eu pensei “pode ser a última chance na minha vida de eu ter um filho”. Eu topei a parada, desde que ela não contasse para o pai biológico quem era o garoto. Eu fui ao parto, ele nasceu. Fui o primeiro a pegá-lo. Ainda bem que nasceu com saúde. Hoje está com vinte e cinco anos, já formado em engenharia, já trabalha, é um menino especial, não por ser meu filho, ou melhor, por ser meu filho, porque ter um pai trans já faz dele um menino especial. Eu tentei educá-lo de uma forma não machista. Aprendeu desde pequenininho a respeitar o diferente, e ele só soube da minha história aos treze anos de idade.

ACGE – Como foi a aceitação dele diante disso?

J.N – Eu dividi a história em duas partes. Uma é que eu não era o pai biológico dele. Essa foi a primeira parte e que eu acho que foi a mais difícil para ele.  Ele optou por uma orientação heterossexual, mas ele também sofre um pouco de discriminação por ser um homem um pouco diferente. O fato dele não gostar de futebol, o fato de se recusar a ficar conversando só sobre mulheres, de uma maneira geral, porque há várias opções no mundo masculino, mas ele se sente meio desconfortável no mundo masculino, nesse mundo patriarcal que trata a mulher como objeto sexual, que bota a mulher lá embaixo. Ele não. Ele é um garoto que se apaixona, que chora, que fala das emoções dele, que sabe discutir relações. Essas coisas que todas as mulheres gostam num homem, que é o lado feminino dele e que a sociedade não permite aos homens.

ACGE – O que você pensa a respeito da existência de uma assessoria de cultura para gêneros?

J.N – Eu acho ótimo. Tinha que ter essa parte de gêneros não só na assessoria de cultura, mas acho que é uma cadeira que devia se criar obrigatória em todas as ciências humanas. Já existe no Rio, na Estácio de Sá já colocamos no curso de direito como matéria obrigatória, curso de direito homoafetivo. Já existe essa cadeira, mas nos últimos semestres, nos últimos anos.

ACGE – O que você pensa a respeito do apoio da ACGE ao lançamento do livro?

J.N – Eu agradeço o convite, só tenho a agradecer. É mais um espaço que estão me dando, a mim não, ao movimento da gente poder se tornar mais visível. A sociedade faz questão que nós sejamos invisíveis, para não incomodar. É uma exclusão total e absoluta. Ainda mais para o transexualismo masculino que ninguém nem sabia que existia. Nem dentro do movimento transexual feminino você ouve falar dos transhomens. Então meu livro é o primeiro livro como uma autobiografia falando desse assunto em português. É realmente uma coisa histórica. Agora é que a turma está começando a enxergar essa outra questão.