As Familias e as Transmasculinidades

Luiz Fernando Prado Uchoa, 32 anos, estudante de jornalismo, atua na área de comunicação da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo – APOGLBT e é colunista dos sites Cata o Babado e Pau Pra Qualquer Obra.

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Luiz esteve no ato contra a retirada da palavra gênero no Plano Municipal de Educação – Camara Municipal dos Vereadores (acervo pessoal)

Conte-nos um pouco da sua história. Como você se reconheceu uma pessoa transexual?Com qual idade?

Moro com minha mãe e dois irmãos na cidade de Guarulhos, curso sétimo semestre de Comunicação Social – Jornalismo, sou membro do núcleo político da família Stronger e atuo no grupo de trabalho na área de comunicação da Associação da Parada – APOGLBT, colunista dos sites: Cata o Babado e Pau Pra Qualquer Obra.
Me reconheço homem trans desde sempre, só não tinha informações a respeito de Transmasculinidade. Vim ter contato com esse universo aos 28 anos após uma consulta com uma psicóloga que me explicou o que seria um homem trans e que se possivelmente essa poderia ser minha real identidade de gênero. Logo após essa consulta passei a realizar várias pesquisas na internet e entrei em muitas comunidades de homens trans para conhecer mais sobre hormonizações, procedimentos para retificação de nome e sexo nos documentos e cirurgias.
Percebi que finalmente tinha me encontrado naquele universo em que poderia ser o que sempre quis ser realmente. Mas, em compartida teria que recomeçar minha vida em todos os sentidos e lógico que senti medo e desamparo no início de minha trajetória por ter tido de me afastar em certos ambientes e amizades que não me respeitaram, perdi também oportunidades de emprego e relacionamentos sexuais amorosos.
Quando você fez a transição de gênero, como foi à relação com sua família, no trabalho e outros ambientes? Você passou por alguma situação de transfobia que marcou sua vida? Qual foi e como você superou?
Passei a realizar a transição de gênero aos 29 anos e foi difícil em todos os setores afirmar minha identidade de gênero ainda tendo características femininas principalmente na universidade, com amigos, conhecidos e com a família. Mas, com o passar do tempo através de leituras e atividades na militância passei a empoderar e entender que gênero em nada tem a haver com características corpóreas, vestimentas e comportamentos. È algo que mais intrínseco a essência e ao sentimento que a pessoa tem relação a si. Minha mãe até hoje reluta em aceitar a minha real identidade de gênero. Mas, percebeu que sou feliz assim e terá de lidar com isso e o restante da família é obrigado a me respeitar mesmo pelo fato de não aceitar mais que me chamem pelo gênero feminino e nem pelo nome de nascimento já que consegui retificar meu nome e sexo nos documentos no final de 2015 e em relação a amigos só mantive aqueles (as) que entenderam a Transmasculinidade e os demais tive de me afastar.
Enquanto ainda não me hormonizava era tido como lésbica masculinizada e era impedido de usar o banheiro masculino e era chamado pelas pessoas pelo gênero feminino apesar das correções que fazia. Passei a superá-las quando passei a me hormonizar e ser lido de forma masculina socialmente e, dessa forma não tive de passar por esses inconvenientes.
Qual sua militância no movimento LGBT?
Milito para dar visibilidade aos homens trans nos movimentos sociais, artísticos e culturais através de ações político sociais realizadas pela família Stronger e organizações parceiras. Realizo conversas em escolas, universidades e empresas públicas e privadas a respeito de identidade de gênero e orientação sexual para estes ambientes saberem lidar com LGBTs.
Como a questão da identidade de gênero é vista, abordada e tratada pelas famílias?
Na família Stronger realizamos conversas informais nos grupos do Whatsapp e também presencialmente acerca de temáticas de orientação sexual e identidade de gênero sem academismos pelo fato das famílias LGBTs serem compostas por adolescentes e jovens oriundos (as) das periferias e por isso, não possuem informações elitizadas. Em nossa família, há uma mulher transexual e dois homens trans que são muitos respeitados pelo grupo e sempre no final do ano passado realizamos um curso de formação inicial política em que havia abordagem de gênero, sexualidade, política e direitos humanos com militantes históricos e membros da própria família transmitindo esses conteúdos de forma lúdica, criativa e inovadora para strongers e convidados (as) que eram iniciantes em militância LGBT.
Luiz Fernando 3Qual o trabalho da Família Stronger em relação à identidade de gênero?
Sempre estamos atuando em conjunto com o Fórum Paulista de Travestis e Transexuais, Centro de Apoio e Inclusão de Travestis e Transexuais e outras organizações com o foco em travestilidade e transexualidade para trazermos informações e também fazermos com os (as) strongers participem das ações conjuntas e dessa forma estejam aptos (as) a fazerem o debate de identidade de gênero em seus locais sociais.
Você milita junto às “famílias” do Arouche e de outras regiões de São Paulo. O que são as famílias? Como elas se constituíram? Como elas funcionam?
Eu faço parte da família Stronger que existe há 10 anos e as famílias são grupos de adolescentes e jovens que se unem para autoafirmar a sua orientação sexual e identidade de gênero em locais como o Arouche e com isso, passam a ter autoestima para afirmarem o seu gênero ou orientação sexual e também voltarem a estudar e iniciarem na vida profissional como também dialogarem com suas famílias co sanguíneas acerca dessas temáticas. Elas surgiram inicialmente na década de 50 com as travestis que eram expulsas de família e as travestis mais velhas acolhiam as  novas e as adotavam dando lhes um sobrenome e proteção em troca de diárias de programas que elas realizavam e na décadas de 80 com a proliferação do vírus HIV gays eram expulsos de casa ou perdiam seus empregos e se viam em situação de vulnerabilidade social e a partir dai surgiram os primeiros grupos de gays e com o passar do tempo as lésbicas e os demais segmentos passaram a se incorporarem nesse tipo de agrupamento. Na família Stronger existe dois núcleos de atividades: Político – Que visa fornecer formação político social ao adolescente e ao jovem através de conversas, cursos de formação e desenvolvimento de ações como protesto, abaixo assinado e participações em ações de grupos e coletivos políticos e do eventos que visa desenvolver festas e ações de socialização para estes adolescentes e jovens.
Como você contribui para esse trabalho?
Sou um dos membros do núcleo político da Stronger e a minha atuação é dar visibilidade aos homens trans na família estando presentes em ações do segmento LGBT e também fornecer informações aqueles que estejam se descobrindo e são membros do agrupamento ou simpatizantes.
Ser um homem trans dificulta em relação ao mercado de trabalho?
As dificuldades de ser homem trans no mercado de trabalho é que quando não se tem o documento retificado e se a sua aparência for andrógena.
Você já passou por problemas para ter sua identidade de gênero respeitada?
Quando não tinha nenhum documento retificado e mostrava o meu documento em procedimentos burocráticos era desrespeitado o tempo todo por mais que explicasse a minha condição as pessoas. E quando um gay sabe da minha Transmasculinidade afirma que nunca serei um homem completo devido a não ter um pênis e ai tenho de me abster de discussões para não me estressar.

Como é sua atuação em relação às transmasculinidades?
Atuo orientando muitos meninos em grupos Whatsapp, facebook, escrevendo artigos sobre Transmasculinidade, indo em escolas e universidades falar sobre o tema e conversar informalmente com jovens e adolescentes sobre o tema no largo do Arouche e no Ibirapuera.
A burocracia dos serviços públicos atrapalha ou traz conflito com o direito de uso do nome social?
Atrapalha demais por muitos serviços públicos não terem profissionais capacitados a respeitarem o uso do nome social devido à falta de proliferação da informação da lei municipal, estadual e federal existentes.

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Ao lado de Judith Butler no espaço cult após a 1° conferencia Queer realizada no Sesc (foto: acervo pessoal)

Como você avalia as políticas públicas em prol de travestis, mulheres transexuais e homens trans no Brasil e em São Paulo (Estado e Município)?
Acredito que foi uma grande vitória se ter no boletim de ocorrência os campos de nome social e também os tipos de motivação da agressão: homofobica ou transfobica e também serviços de defensoria pública que permitiam denuncias de agressões e a questão da retificação de nome e sexo nos documentos. Mas, o acesso a saúde integral de TTs é algo precário e extremamente burocrático algo que precisa ser modificado urgentemente.
Quais os avanços mais significativos?
A criação do ambulatório de TTs, a expansão do uso do nome social em universidades e escolas, criação de centros de saúde LGBTs, programa de inclusão a TTs como transcidadania apesar de existirem alguns pontos a serem melhorados.

O que ainda precisa avançar?
Ampliação de ambulatórios de travestis e transexuais, investimento nos hospitais existentes em equipamentos e médicos para a realização de cirurgias de resignação sexual e outros procedimentos pertinentes a TTs, criação de novos hospitais, políticas publicas de acesso ao mercado de trabalho e de geração de renda a TTs, a despatologização da transexualidade no CID e formação em gênero e sexualidade em escolas, universidades e demais espaços para profissionais destes locais entenderem mais sobre o universo LGBT.
Que mensagem você deixaria para o Dia da Visibilidade Trans?
Apesar de todas as batalhas que terá de travar com família, amigos e sociedade nunca deixem se abater. Pois, nada justifica viver trancafiado em um armário só para se viver uma vida aparentemente confortável, afinal de contas o importante nessa vida é que para se ser feliz tem de ser o que se realmente é.